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Cláudia Cardoso

Imobilizar

Publicado: 2015-02-26 15:43:45 | Actualizado: 2015-02-26 15:43:45
Por: RTP Açores
Imobilizar

Não há nada mais imobilizante para o homo sapiens moderno do que o telemóvel. Colocá-lo nas mãos de alguém fossiliza o indivíduo. Torna opaco o contexto. Congela qualquer solicitação. Por mais urgente que seja. O choro da filha, uma declaração de amor, um aperto fisiológico. Não deixa de ser irónico que o que nos aproxima dos distantes nos afaste dos mais próximos. Torna-se demasiado frequente assistir à família, que janta na mesma mesa, a fixar os respetivos ecrãs dos iPhones. As costas curvadas, os olhos esgazeados, o dedo ligeiro. A meio do encontro com um amigo, na fila para o pão, a caminho de um beijo há um telemóvel que se impõe. Doenças novas nascem desta excessiva dependência ecrãniana. O homem novo tornar-se-á irreconhecível. Preso a um vidro, em que ícones do tamanho duma unha do dedo mindinho lhe permitem estar em muitos outros lugares, encontrar amigos distantes, ligar-se a familiares que vivem no outro lado do mundo. Mas que o afasta com persistência dos que lhe estão, por agora, ainda próximos. Quando toca o telemóvel pára tudo. O garfo interrompe o seu trajecto a caminho da boca, despreza-se a notícia, desiste-se da confidência. A urgência que o vibrato duma sms faz a entrar funciona como um interruptor. Que desliga o homem repentinamente. Das suas funções. Mesmo das mais básicas. Que o diga a análise feita às bactérias presentes nos écrans de iPhones. Desconfio que não daria um grande spot publicitário. O telemóvel surte aquele efeito nebulosa. O ser que se liga à rede desliga-se da vida. Fica em suspenso, como os flamingos que dormem sobre uma perna só. Imobilizados. Como pode um objecto ser tão abjecto? Caber na palma da mão e fechar-nos dentro dela? A ponto de haver quem entre em pânico só de pensar na possibilidade de ficar sem telemóvel. Não conseguimos viver sem ele, mas com quanto de nós viveremos enquanto estamos ligados a ele?

claudia.cardoso9@gmail.com

 
Cláudia Cardoso Cláudia Cardoso

Deputada regional, Cláudia Cardoso é cronista da imprensa açoriana e da RDP.

A sua escrita escorreita e realista cativa o leitor.

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